A Fênix Pixelizada: Cinzas Eternas

19 de agosto de 2011 Deixe um comentário

Como discutido anteriormente, ser nerd se tornou uma maldita modinha. Do nada, todo o mundo se dizia nerd, amantes/admiradores dos nerds e coisas parecidas. Nossos mundos foram invadidos por matérias da Globo que mostravam como éramos “legais” em nossa ânsia por conhecimento e pornografia, e como tínhamos nossa contraparte mais incrivelmente legais ainda, os geeks (Nada contra eles, claro).

Mas, de quem é a culpa de toda exposição, que nos fez esconder, por vergonha de nossos hábitos, nossas usuais 20 abas simultâneas do 4chan por artigos do Gizmodo, Slashdot, Judão e Jovem Nerd? Nós mesmos, e a atitude de “orgulho nerd”. Não que eu reclame disso, o problema é: saímos demais dos subterrâneos da sociedade. Três anos atrás, o Towel Day era comemorado por meia dúzia de nerds e um ou outro amigo mais solidário/sem noção. Ano passado, se tornou um evento de larga escala, divulgado de todo modo em redes sociais, blogs/sites, jornais televisados e no quadro de recados da Pastelaria da Dona Maria.

E, quando grandes mobilizações, por qualquer motivo que seja, ocorrem, quem tá logo atrás registrando? As “grandes mídias”: redes de TV, rádios e jornais. Todos eles explicando o evento, quem participa, o porque, e O QUE SÃO NERDS. Esse foi o problema.

Por incrível que pareça, na cadeia alimentar social existem grupos abaixo dos nerds. Emos, frequentadores do /b/, aquele cara que assistiu, lembra e comenta cada filme já lançado neste quadrante da galáxia, e os freaks, entre outros. Agora, quando você tem a chance de subir na escala social, o que você faz? No caso de uma pessoa normal, você sobe na escala social. E foi o que todos esses caras acima fizeram. O emo que era chamado de bichinha com mau gosto dizia que era nerd, apesar de confundir Jim Morrisson com Bon Scott e Janis Joplin com Courtney Love. O freak afirma ser nerd para explicar seu estilo de vida anti-social, recluso e estranho. O cinéfilo tá pouco se lixando pra tudo isso, desde que consiga comprar uma cópia de um raríssimo filme polonês de 1943.

A exposição excessiva à grande mídia nos arrancou dos subterrâneos sociais. E, junto conosco, vieram todos aqueles falsos nerds, que queriam experimentar, por breve que fosse, o gosto de uma aceitação social plena. Mas eles não conseguiam se manter por muito tempo. O emo achava rock de verdade muito agressivo, o /b/tard sentia saudades de trollar, o freak queria voltar para seu quarto escuro cheio de embalagens de fast-food infestadas de baratas, e o cinéfilo continuava cagando pra tudo isso, pois tinha uma resenha pra postar no Rotten Tomatoes.

Aos poucos, os falsos nerds voltaram às suas origens, e os nerds foram perdendo seu status cool. Aos poucos, os nerds reais voltam a ser deixados de lado, em paz com suas actions figures, coleções de livros e <a href=http://www.baconfrito.com>sites obscuros que tratam com humor e opinião o que acontece no mundo da mídia</a>. Aos poucos, deixam de nos incomodar, e podemos voltar ao nosso cotidiano de ler 200 artigos de 90 sites diferentes por dia sem ninguém nos incomodar.

Shiloh salve a curta memória do povo brasileiro.

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A Fênix Pixelizada: Chama Célere

19 de agosto de 2011 Deixe um comentário

De uns anos para cá, começou a acontecer algo que eu, desde pequeno, julgava impossível: Os nerds se tornaram populares. Claro, sempre tinha uma ou outra ovelha desgarrada que, devido a algum desvio de personalidade, conseguia ser menos desprezado que o normal. Nós, nerds, não tínhamos habilidade para praticar esportes, velocidade ou resistência para brincar de esconde-esconde ou pega, ou mesmo beleza para brincar de salada mista.

É, a vida era uma droga. Nossa diversão se resumia a ler (Com dez anos, eu já tinha lido O Sítio do Pica-Pau Amarelo umas muitascentas vezes, os livros infantis do Érico Veríssimo e pelo menos metade d’O Tesouro da Juventude, além de centenas de revistas da Turma da Mônica, entre outros), assistir TV (O Mundo de Beakman, programação da TV Cultura em geral, além de Caverna do Dragão e uns outros desenhos) e, para os insanamente sortudos, jogar videogame (Tenho meu SNES até hoje, mas ele não anda muito bem da CPU) e/ou usar o computador dos pais como plataforma para jogar hacks de Prince of Persia, Mario e Pokemon Blue/Red, entre outros que eram compartilhados via pilhas de disquetes. É, a vida era simples e boa.

Mas os nerds ainda eram desprezados. Ninguém que preferisse ler, assistir TV ou se reunir para jogar RPG ao invés de correr no meio da rua era normal. Crescemos e criamos uma sociedade à parte, com costumes, hábitos, estilos de vida e cultura diferenciadas, e éramos felizes com isso.

Entendam que nenhuma dessas atividades, isoladas, bastaria para classificar alguém como nerd. Sempre tinha o cara que passava a tarde grudado na TV, gravando o filme da Sessão da Tarde em VHS. Também tinha um ou outro que gastava quase R$ 5,00 por dia (O que, na época, era um valor -e uma quantidade de tempo considerável, dependendo do custo da hora – altíssimo) na locadora de videogames do bairro, apagando as digitais enquanto jogava Street Fighter, Super Mario World e Teenage Mutant Ninja Turtles, além do crássico International Soccer Superstar Deluxe, para quem gostava. Mas só isso não era necessário para ser considerado um nerd. Afinal, o cara que melhor jogava futebol na rua era fanático por Sonic, a menina que mais pulava corda não perdia por nada nesse mundo seu episódio de História Sem Fim Malhação ou a reprise de A Lagoa Azul.

Um ou dois anos atrás, sem nenhum motivo aparente, ser nerd se tornou popular. O cinéfilo apelidado de IMDB Ambulante, mas sociável e noob, era nerd. O cara que jogava Call of Duty só para aliviar seus instintos homicidas era nerd. O outro, que decorou os códigos de edição de texto do WordPress por puro costume, era um nerd 1337 h4ckz0r fr0m h311. O emo que passou a ler The Umbrella Academy porque o roteirista era o vocalista do My Chemical Romance era um nerd. De repente, todo mundo e, ao mesmo tempo, quase ninguém, era nerd. E isso se tornou um problema.

[Continua]

O Nervangelho segundo Eu

19 de agosto de 2011 Deixe um comentário

No começo, o Autor teve a inspiração para sua obra. Mas a idéia inicial não tinha forma, ou significado. E o Autor pensou mais, e pesquisou sobre o tema, e veio a luz. E o Autor viu que era bom. E então ele refinou tudo o que havia e chamou a melhor parte de Obra Principal, e denominou as partes não tão boas assim de spin-offs e material complementar não necessário à compreensão integral da obra.

E, então, o Autor trabalhou na parte boa, e criou uma história de fundo, personagens cativantes devidamente descritos e caracterizados, definiu cenários, e viu que havia potencial na obra. Então, dos cadernos Tilibra de R$ 1,00 comprados no supermercado da esquina, o Autor transferiu a obra para seu computador através do milagre do OpenOffice (sem jabá até que a grana apareça no meu bolso, Mr. Anderson Ballmer), e, daí, para o Editor da sua editora predileta para avaliação. E o Editor viu que aquela Obra era digna dos Deuses e de impressão, e chamou o Autor para discutir maiores detalhes.

Após uma reunião agradável, Autor e Editor, inspirados por um poder superior (Popularmente conhecido por Licor de Amarula) ratificaram a decisão de publicar a Obra. E convocaram o Arauto da Fortuna (Dona Maria, secretária do presidente) e ordenaram que este levasse a Obra para apreciação do Presidente da Editora. E este leu a Obra, e viu que era boa. E, com sua voz trovejante e imponente, ordenou a Marquinhos, O Estagiário:

Leva isso aqui pro pessoal lá que desenha pra eles fazerem uma capa e os desenhos. E vê se não debiza.

E Marquinhos levou a Obra ao Setor de Ilustração, e um deles foi o Escolhido para ilustrar a Obra. E o Escolhido passou meses ilustrando a Obra ao agrado do Autor e do Editor. E, após concluída, devidamente revisada e impressa, a Obra foi enviada para o setor de frete da Editora, e daí para as livrarias. E apesar da pouca divulgação, a Obra foi um sucesso, e todos os leitores se regozijaram com a qualidade da impressão e da Obra em si.

O tempo passou, e a Obra se solidificou, ganhou diversas interpretações em fóruns internet afora, e versões em flash no YouTube. E o Autor e a Editora (que retinha parte dos direitos autorais) preenchiam seus orifícios corrugados retrofuriculares com papel-moeda. E a vida era boa.

Mas forças ocultas, vindas de Los Angeles, cobiçaram a Obra e adquiriram direitos para fazer uma versão cinematográfica da mesma. E adaptaram a Obra, e a adaptação era de excelente qualidade, e fez um sucesso estrondoso ao redor do mundo. E com o sucesso veio a queda, pois os Fóruns Sagrados, antes somente frequentados por aqueles que compreendiam e admiravam a Obra, foram invadidos por aqueles que buscavam piadinhas visuais infames e links para download do filme (de preferência em arquivos *.rmvb de baixa qualidade), vindos em sua maioria da Terra de Büyükkokten.

Infiéis, que não compreendiam sequer basicamente a extensão da Obra, discutiam em sua linguagem rude e semi-incompreensível o modo como não entendiam o que a obra dizia, mas de certo modo apreciavam o trabalho do Ilustrador, pois havia beleza neste.

E os verdadeiros adoradores da obra se irritaram por serem impotentes perante a horda, e prantearam a lenta e gradual desaparição dos seus em meio à horda, mas ainda com esperanças de que, um dia, a pedido do Sumo-Sacerdote Moore, Glycon sairá de seu covil e eliminará a horda com seus dardos venenosos.

Amém.

Referência

19 de agosto de 2011 Deixe um comentário

É sábado de tarde. Você, amado leitor, está no meio de duas decisões de grande importância: se chatear assistindo o programa do Luciano Huck ou mergulhar de cabeça no tédio quase tangível que está o fim de semana. Você não tem grana para preencher sua face de etanol, ir pra uma churrascaria rodízio/festa ou praticar tiro ao alvo em vegetarianos bebês. Todo o dinheiro que você tem, incluindo as moedas perdidas no sofá, dá exatamente o preço de uma entrada de cinema. Então, com a esperança à sua frente, você vai ao cinema e vê que, sei lá, [Filme de cavaleiros genérico/aleatório] está em cartaz. Você compra a entrada, entra na sala de projeção e assiste o filme. Mais na frente, no entanto, durante uma cena de luta, você vê que no desenrolar da ação aparece no fundo da imagem, por alguns poucos segundos, uma mão saindo da água com uma espada, e um jovem cavaleiro recebendo-a. É nessa hora que seu cérebro explode e o pensamento voa: RÁÁÁÁÁÁ!PEGADINHA DO MALANDRO! Isso foi uma referência às Lendas Arturianas! Meia hora depois, aparece um cavaleiro, e, diante de uma proposta que ofende seu código de honra, ele solta um Ni! E a torcida vai à loucura com a referência a Monty Python e o Cálice Sagrado!

Não sei vocês, mas eu enlouqueço quando estou lendo/assistindo/ouvindo/verbo-no-gerúndio-relacionado-a-mídia algo e noto uma referência a alguma outra obra. Aliás, gosto tanto que vivo colocando-as nos meus textos, mesmo que a maioria não perceba. Referências a Monty Python, Nerdcast, livros, filmes, mitologia, lendas urbanas, conspirações e celebridades cibernéticas, desenhos… enfim, uma infinidade de assuntos.

Não sei a razão de tanta gente (ou tantos nerds -afinal, é a classe com que eu mais convivo, apesar do ululante desrespeito conosco. Não tem mais respeito, nhac nhac nhac) gostar de referências, mas eu tenho uma teoria: referências nos fazem nos sentir mais espertos, mais cultos. Notem a ênfase em “nos sentir”. Não estou dizendo que eu sou um classista burguês com síndrome de underground que se acha mais culto que 90% da população, mas que referências que só nós captamos nos dão uma temporária sensação de superioridade. Imagine você saindo do cinema depois de assistir um filme de terror qualquer e, comentando com seu amigo, você diz que quase chora de rir com a referência aos Ghostbusters no confronto final. Seu amigo para, arregala os olhos e pergunta: que referência aos Ghostbusters? Aí você fala da placa com o logo deles que aparece por cinco segundos no armazém abandonado onde ocorre a conclusão do filme.

Who ya gonna call?

Sim, eu estou falando sério. Isso nos faz nos sentir superiores, afinal, numa sala de cinema com 150, só uma pegar aquela rápida alusão feita a John Constantine no filme do Pe. Marcelo Rossi (ok, esse exemplo foi um muito forçado, mas vocês entenderam), nos diz que, pelo menos em relação ao pessoal que tava na sala do filme, só uma possuía algum conhecimento sobre Hellblazer. There can be only one!…Not.

E, claro, as melhores referências são as sutis. Colocar no filme do 24 Horas o Jack Bauer citando o Ozymandias (A world in peace- there had to be sacrifice) depois de matar 369 terroristas seria assaz foda (antes do filme Watchmen ser lançado, claro). Colocar o Punisher em seu novo filme parafraseando o House (Everybody lies, antes ou no meio de uma sessão aterrorizante de tortura, por exemplo) ficaria meio chato, já que metade do mundo conhece o Dr. G.

Mas, estou me alongando demais, minha mente está devaneando muito hoje. Até a próxima e uma vida longa e próspera a todos vocês.